JurisprudênciaIA

Superior Tribunal de Justiça

Acórdão

Relator(a)
Ministro Messod Azulay Neto
Órgão julgador
Quinta Turma
Data do julgamento
15/04/2026
Data de publicação
22/04/2026

STJ – Acórdão, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, j. 15/04/2026, p. 22/04/2026

Ementa

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. TESE DE FALHA DE DEFESA TÉCNICA. NULIDADE RELATIVA. SÚMULA N. 523, STF. COISA JULGADA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. INADEQUAÇÃO DO HABEAS CORPUS. AGRAVO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. O recurso. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática de Tribunal Superior que não conheceu de habeas corpus impetrado em favor de condenado pela prática do crime previsto no art. 2º, II, da Lei n. 8.137/1990, por 53 vezes, na forma do art. 71, caput, do Código Penal, à pena de 11 meses e 20 dias de detenção, além de 18 dias-multa. 2. Fato relevante. Em apelação criminal do Ministério Público, a sentença condenatória foi reformada para alterar o regime inicial de cumprimento da pena de aberto para semiaberto, tendo a condenação transitado em julgado. 3. Fundamentos do agravo regimental. A defesa alega efetiva ausência de defesa técnica em fase recursal essencial, com consequente agravamento da situação penal do agravante (alteração do regime inicial), sem observância do contraditório e da ampla defesa, afirmando vício no trânsito em julgado e postulando, em habeas corpus, o afastamento dos efeitos executórios da condenação. Requer o provimento do agravo para concessão da ordem, ainda que de ofício. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 4. A questão em discussão consiste em saber se, por meio de agravo regimental em habeas corpus, é possível reconhecer nulidade da condenação transitada em julgado, a partir da alegação de ausência ou deficiência de defesa técnica em fase recursal que resultou em agravamento do regime inicial, sem demonstração concreta de prejuízo. 5. Outra questão em discussão consiste em saber se Tribunal Superior pode conhecer de habeas corpus, em substituição aos meios próprios (como a revisão criminal), para analisar matéria não apreciada colegiadamente pelo Tribunal de origem, sem prévio exaurimento da instância antecedente e sem o indispensável prequestionamento, quando o exame das alegações demandaria revolvimento fático-probatório. III. RAZÕES DE DECIDIR 6. A jurisprudência consolidada, à luz da Súmula n. 523, STF, distingue falta de defesa (nulidade absoluta) de deficiência de defesa (nulidade relativa), de modo que apenas a ausência total de defesa enseja nulidade absoluta, enquanto a alegação de insuficiência de atuação defensiva exige demonstração concreta de prejuízo para o réu, o que não se verificou no caso. 7. A apelação criminal se submete ao princípio da voluntariedade recursal, de forma que a estratégia adotada pela defesa em grau de recurso ou a eventual não interposição de medidas cabíveis não configura, por si só, falta de defesa técnica apta a nulificar a condenação. 8. A condenação encontra-se acobertada pela coisa julgada, e o habeas corpus não se presta, como regra, a desconstituir título penal definitivo, sendo a revisão criminal a via própria para questionar eventuais vícios da decisão transitada em julgado, salvo em hipóteses de flagrante ilegalidade, não evidenciada nos autos. 9. Inexiste manifestação colegiada do Tribunal de origem sobre as teses agora deduzidas, de modo que o conhecimento da impetração diretamente pelo Tribunal Superior configuraria indevida supressão de instância, em afronta à competência estabelecida no art. 105, incisos I e II, da Constituição Federal, e às regras regimentais internas (art. 13, incisos I e II, do Regimento Interno de Tribunal Superior). 10. O prequestionamento das teses jurídicas constitui requisito de admissibilidade da atuação do Tribunal Superior, inclusive quanto a matérias de ordem pública, sendo vedado o exame originário de questões não debatidas nas instâncias ordinárias, sob pena de violação da competência constitucionalmente definida. 11. O habeas corpus não é via adequada para análise de alegações que exigem reexame aprofundado do acervo fático-probatório, tais como teses de insuficiência de provas ou de negativa de autoria, o que também impede o acolhimento da pretensão defensiva na presente via estreita. 12. Não se constatou flagrante ilegalidade que autorize a superação dos óbices processuais ou a concessão de ordem de ofício, e o agravo regimental não trouxe fundamentos novos capazes de infirmar a decisão monocrática, que deve ser mantida por seus próprios fundamentos. IV. DISPOSITIVO E TESE 13. Resultado do Julgamento: Negado provimento ao agravo regimental, mantendo-se a decisão que não conheceu do habeas corpus. Teses de julgamento: 1. A deficiência de defesa técnica, ao contrário da ausência absoluta de defesa, configura nulidade relativa e somente autoriza a anulação do processo penal quando demonstrado prejuízo concreto para a parte acusada. 2. A condenação penal transitada em julgado não pode ser desconstituída por meio de habeas corpus, salvo em hipóteses de flagrante ilegalidade, sendo a revisão criminal a via adequada para o reexame da decisão definitiva. 3. O Tribunal Superior não pode apreciar, em habeas corpus, questões não previamente submetidas ao exame colegiado do Tribunal de origem, sob pena de supressão de instância. 4. O prequestionamento das teses jurídicas e o exaurimento da instância antecedente constituem requisitos indispensáveis ao conhecimento da matéria pelos Tribunais Superiores, ainda que se trate de questão de ordem pública. 5. O habeas corpus não se presta à análise de alegações que demandem revolvimento amplo do conjunto fático-probatório, como teses de insuficiência probatória ou de negativa de autoria. Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 105, incisos I e II; Regimento Interno de Tribunal Superior, art. 13, incisos I e II; Súmula n. 523/STF; Lei n. 8.137/1990, art. 2º, II; Código Penal, art. 71, caput. Jurisprudência relevante citada: Precedentes de Tribunal Superior em habeas corpus e recursos especiais que exigem o prévio exaurimento da instância antecedente, o prequestionamento das teses jurídicas e reconhecem a inadequação do habeas corpus para o revolvimento do conjunto fático-probatório. (AgRg no HC n. 1.070.958/SC, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 15/4/2026, DJEN de 22/4/2026.)
Consultar o inteiro teor no site do STJ ↗

Decisões similares

Encontradas por similaridade semântica das ementas.

Acórdão

Sexta Turma · Rel. Ministro Og Fernandes · j. 15/04/2026

DIREITO PENAL. DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. REVISÃO CRIMINAL INDEFERIDA NA ORIGEM. SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. INADMISSIBILIDADE. CONSTRANGIMENTO ILEGAL. NÃO OCORRÊNCIA. CONCESSÃO DA ORDEM. IMPOSSIBILIDADE. AGRAVO IMPROVIDO. 1. Apreciado pela instância de origem o pedido de revisão criminal, a impugnação deve ser feita por meio de recurso especial, nos termos previstos no art. 105, III, da Constituição F…

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministro Ribeiro Dantas · j. 25/03/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. HABEAS CORPUS. PROVA PRÉ-CONSTITUÍDA. INDICAÇÃO DE AUTORIDADE COATORA. NULIDADE POR AUSÊNCIA DE DEFESA TÉCNICA. DECURSO DE PRAZO. SÚMULA 523/STF. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática que indeferiu liminarmente habeas corpus impetrado em causa própria, no qual se indicou como autoridade coatora Juiz de Direito de Vara Criminal estadual, sem atribuiç…

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministro Ribeiro Dantas · j. 25/03/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO. CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. REABERTURA DE PRAZO RECURSAL. NULIDADES PROBATÓRIAS COMPLEXAS. DOSIMETRIA DA PENA. INEXISTÊNCIA DE ILEGALIDADE FLAGRANTE. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática que não conheceu de habeas corpus, por reconhecer seu caráter substitutivo de recurso próprio em contexto de condenação penal tra…

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministro Ribeiro Dantas · j. 23/10/2024

AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA. CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. INSURGÊNCIA CONTRA A DEFESA TÉCNICA ANTERIOR. NULIDADE. NÃO RECONHECIMENTO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.1. A utilização do habeas corpus com o fim de se desconstituir as decisões proferidas pelas instâncias ordinárias consubstancia pretensão revisional que configura usurpação da competência do Tribunal de origem, nos termos dos arts. 105, inciso I, alínea e e 108, inciso I…

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministro Ribeiro Dantas · j. 15/04/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÂNSITO EM JULGADO. SUCEDÂNEO DE REVISÃO CRIMINAL. COMPETÊNCIA DO TRIBUNAL DE ORIGEM. AGRAVO IMPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto contra decisão que não conheceu do habeas corpus impetrado com o objetivo de desconstituir condenação criminal já transitada em julgado, sob alegação de nulidades ocorridas no curso do processo. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A questão em discussão consiste em saber …

Pesquise jurisprudência como esta

Busque em dezenas de tribunais brasileiros, com busca inteligente por IA e comparação de precedentes.