JurisprudênciaIA

Lei estadual pode autorizar município a licenciar empreendimentos na zona costeira?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STF

Resposta rápida

Não, de forma genérica. O STF, em julgado noticiado no Informativo 402, declarou inconstitucionais dispositivos de lei estadual que atribuíam genericamente a municípios com conselho de meio ambiente o licenciamento de empreendimentos na zona costeira e a autorização de supressão de vegetação nativa da Mata Atlântica em área urbana, por usurpação da competência da União para normas gerais (art. 24, VI, da CF).

O vício de competência identificado pelo STF

Em matéria de proteção ambiental, a Constituição reserva à União a edição de normas gerais, cabendo aos Estados suplementá-las. A lei estadual questionada foi além: transferiu genericamente a municípios que possuíssem conselho de meio ambiente o poder de licenciar empreendimentos nas faixas terrestres e marítimas da zona costeira e de autorizar a supressão de vegetação nativa, primária e secundária, em área urbana do bioma Mata Atlântica, independentemente do estágio de regeneração.

Para o STF, essa atribuição genérica usurpa a competência legislativa da União prevista no art. 24, VI, da Constituição, pois a zona costeira e a Mata Atlântica são objeto de disciplina geral federal que o Estado não pode afastar por delegação ampla aos municípios.

Consequências práticas

O julgado não nega toda atuação municipal em licenciamento ambiental, mas veda que lei estadual crie, de forma genérica e sem observância das normas gerais federais, competência municipal sobre áreas de especial proteção como a zona costeira e a Mata Atlântica. A repartição de atribuições precisa respeitar o desenho federal.

Empreendedores e municípios devem verificar, em cada caso, qual ente é efetivamente competente para o licenciamento, e os tribunais examinam a validade dessas delegações à luz das normas gerais da União.

O que dizem os tribunais

Informativo 1171 do STF · ADI 7.007

São inconstitucionais — por usurparem a competência legislativa da União para editar normas gerais sobre proteção ambiental (CF/1988, art. 24, VI) — dispositivos de lei estadual que, de forma genérica, atribuem a município que possua conselho de meio ambiente a possibilidade de: (i) conceder o licenciamento ambiental de empreendimentos e atividades que compreendam as faixas terrestres ou marítimas da zona costeira; e (ii) autorizar a supressão de vegetação nativa (primária e secundária) situada em área urbana do bioma Mata Atlântica, independentemente do estágio de regeneração.

Decisões recentes sobre o tema

Selecionadas automaticamente na nossa base e atualizadas com frequência.

ADPF 1.201

Tribunal Pleno · Rel. Flávio Dino · j. 18/02/2026

Ementa: Direito ambiental. Arguição de descumprimento de preceito fundamental. Realização de Audiência Pública. Complexidade dos temas debatidos e multiplicidade de enfoques técnicos. Drástica redução do quadro de pesquisadores ambientais. Informações complementares e providências adicionais. medida cautelar parcialmente concedida. Obrigação de apresentar planejamento. Decisão referendada. I. Caso em exame 1. Arguição de descumprimento de preceito fundamental ajuizada pelo Pa…

RCL 82.188

Primeira Turma · Rel. Flávio Dino · j. 26/11/2025

Ementa: AGRAVO REGIMENTAL EM RECLAMAÇÃO. TORRES DE TELECOMUNICAÇÕES. TAXA DE FISCALIZAÇÃO AMBIENTAL INSTITUÍDA POR LEI MUNICIPAL. ALEGAÇÃO DE AFRONTA À COMPETÊNCIA PRIVATIVA DA UNIÃO (ARTS. 21, IX, E 22, IV, DA CF). INADMISSIBILIDADE DA RECLAMAÇÃO. AUSÊNCIA DE ESGOTAMENTO DAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. ART. 988, § 5º, II, DO CPC. DISTINÇÃO ENTRE LICENCIAMENTO AMBIENTAL (VEDADO) E FISCALIZAÇÃO AMBIENTAL/URBANÍSTICA (ADMITIDA). TEMA 919-RG. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO À AUTORIDADE DAS DEC…

RCL 79.641

Segunda Turma · Rel. Gilmar Mendes · j. 11/11/2025

Ementa: Direito ambiental. Embargos de declaração na reclamação. Licença ambiental simplificada concedida pelo Município de Camaçari/BA. Alegada violação ao entendimento consolidado na ADI 7.007/BA. Inocorrência. Previsão de necessidade de Anuência das demais instâncias (Estadual e Federal). Norma com prazo de vigência exaurido. Embargos de declaração recebidos como agravo regimental ao qual se nega provimento. I. Caso em exame 1. Trata-se de reclamação, com pedido liminar, a…

ARE 1.560.316

Primeira Turma · Rel. Cristiano Zanin · j. 05/11/2025

Ementa: Direito Tributário. Competência legislativa. Inconstitucionalidade de lei local sobre instalação de antenas transmissoras de telefonia celular. Invasão da competência da União ao atingir serviço de telecomunicações. Tema 1.235 da Repercussão Geral. Precedentes do Plenário do Supremo Tribunal Federal. Agravo regimental a que se nega provimento. I. Caso em exame 1. Questiona-se a validade de auto de infração e imposição de multas em face de empresa de telefonia, com fun…

RE 1.548.005

Segunda Turma · Rel. Gilmar Mendes · j. 27/10/2025

Ementa: Direito ambiental. Agravo regimental no recurso extraordinário. Licenciamento ambiental de linha de transmissão de energia elétrica. Competência do IBAMA. Agravo regimental desprovido. I. Caso em exame 1. Trata-se de agravo regimental interposto pela CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo e pelo Estado de São Paulo contra decisão que negou seguimento a recurso extraordinário manejado em face de acórdão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. O acórdão …

ARE 1.525.152

Tribunal Pleno · Rel. Nunes Marques · j. 22/09/2025

Ementa: DIREITO CONSTITUCIONAL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM AGRAVO INTERNO EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. TORRES DE TELEFONIA CELULAR. LICENCIAMENTO AMBIENTAL E ALVARÁ DE CONSTRUÇÃO. LEI MUNICIPAL. INCONSTITUCIONALIDADE. TELECOMUNICAÇÕES. COMPETÊNCIA PRIVATIVA DA UNIÃO. RECURSO PROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Embargos de divergência opostos contra acórdão da Primeira Turma por meio do qual mantido pronunciamento do Tribunal de Justiça que, com base em l…

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