JurisprudênciaIA

Médico pode denunciar à polícia paciente que buscou atendimento após tentar aborto?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Não. O STJ, em precedente divulgado em informativo de jurisprudência, decidiu que o médico é confidente necessário e não pode acionar a polícia contra paciente que buscou atendimento após praticar manobras abortivas. Ele está proibido de revelar o segredo profissional e de depor sobre o fato como testemunha, e a prova assim obtida é ilícita.

O médico como confidente necessário

O art. 207 do Código de Processo Penal proíbe de depor as pessoas que, em razão da profissão, devam guardar segredo, salvo se desobrigadas pela parte interessada. O médico que atende a paciente se enquadra nessa vedação: o sigilo protege a confiança indispensável ao exercício da medicina e tem interesse público reconhecido pela jurisprudência.

O Código de Ética Médica reforça a proibição e prevê expressamente que, na investigação de suspeita de crime, o médico permanece impedido de revelar segredo que possa expor o paciente a processo penal. Em regra, o médico não tem dever legal de comunicar fato criminoso, e mesmo nas hipóteses de notificação compulsória é vedada a remessa do prontuário.

Efeito sobre o processo penal

No caso examinado, o inquérito nasceu da comunicação feita pelo próprio médico, que ainda foi arrolado como testemunha e encaminhou o prontuário da paciente. O STJ considerou que toda a persecução penal ficou contaminada por prova ilícita e determinou o trancamento da ação penal.

O precedente indica que denúncias formuladas por profissionais de saúde contra pacientes atendidas em contexto de aborto tendem a invalidar a prova. Ainda assim, o trancamento de ação penal por habeas corpus é medida excepcional, e os tribunais examinam caso a caso como a notícia do crime chegou às autoridades.

O que dizem os tribunais

Informativo 767 do STJ · RMS 9.612

Médico não pode acionar a polícia para investigar paciente que procurou atendimento médico-hospitalar por ter praticado manobras abortivas, uma vez que se mostra como confidente necessário, estando proibido de revelar segredo do qual tem conhecimento, bem como de depor a respeito do fato como testemunha.

Decisões recentes sobre o tema

Selecionadas automaticamente na nossa base e atualizadas com frequência.

Acórdão

T6 - SEXTA TURMA · Rel. OG FERNANDES · j. 17/06/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EM HABEAS CORPUS. ESTELIONATO. QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO. PROVA ILÍCITA. DESENTRANHAMENTO DAS PROVAS. MANUTENÇÃO DA DENÚNCIA. EXISTÊNCIA DE LASTRO PROBATÓRIO AUTÔNOMO. PROVA ILÍCITA POR DERIVAÇÃO. NECESSIDADE DE REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE NA VIA ESTREITA DO HABEAS CORPUS. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO.1. O habeas corpus exige demonstração inequívoca de ilegalidade de plano, mediante prova pré-constituíd…

Acórdão

T2 - SEGUNDA TURMA · Rel. MARCO AURÉLIO BELLIZZE · j. 03/06/2026

AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. TRIBUTÁRIO. VIOLAÇÃO AO ART. 1.022, II, DO CPC/2015. ALEGAÇÕES DE LANÇAMENTO FUNDADO EM PROVA ILÍCITA E ILEGALIDADE DE QUEBRA DE SIGILO FISCAL. OMISSÃO CONSTATADA. RAZÕES RECURSAIS INSUFICIENTES. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO.1. A análise do acórdão recorrido - da apelação e dos embargos de declaração opostos - revelou não ter havido manifestação suficiente sobre os pontos considerados omitidos, caracterizando negativa de prestação jurisdiciona…

Acórdão

T6 - SEXTA TURMA · Rel. SEBASTIÃO REIS JÚNIOR · j. 20/05/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. MENSAGENS OBTIDAS VIA WHATSAPP WEB EM COMPUTADOR DE USO COMUM. ALEGAÇÃO DE PROVA ILÍCITA. PARCIAL CONHECIMENTO.1. O acesso às mensagens ocorreu em computador de uso comum da residência, no qual a conta de WhatsApp Web da mãe da vítima estava logada e com as conversas abertas, tendo o acesso sido realizado por irmã da vítima em contexto doméstico, sem interceptação clandestina, invasão de dispositivo in…

Acórdão

Sexta Turma · Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior · j. 18/11/2025

DIREITO PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. APREENSÃO DE CELULAR. ACESSO A DADOS ARMAZENADOS. PROVA ILÍCITA. FONTE INDEPENDENTE. CONDENAÇÃO SUFICIENTEMENTE FUNDAMENTADA EM OUTRAS PROVAS. 1. A condenação da paciente foi suficientemente fundamentada em outras provas válidas, obtidas no momento de sua prisão em flagrante, e mantém-se ainda que sejam desconsideradas as controvertidas mensagens de WhatsApp extraídas de seu aparelho celular. 2. Apesar da ilicitude d…

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministro Messod Azulay Neto · j. 22/10/2025

Direito processual penal. Agravo regimental. Utilização de e-mails obtidos por escritório de advocacia. Violação de sigilo profissional e cadeia de custódia. Trancamento de inquérito policial. Agravo regimental não provido. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto pelo Ministério Público Federal contra decisão monocrática que deu provimento a recurso ordinário, reconhecendo a ilegalidade da utilização de e-mails encaminhados por escritório de advocacia e determinando …

Acórdão

Sexta Turma · Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro · j. 03/09/2025

DIREITO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. PROVA ILÍCITA POR DERIVAÇÃO. PRESTAÇÃO PECUNIÁRIA. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. Agravo regimental interposto contra decisão que negou provimento a recurso especial, no qual se alegava violação de dispositivos do Código Penal e do Código de Processo Penal, em razão de suposta prova ilícita por derivação e fixação de prestação pecuniária sem motivação adequada. 3. O Tribunal de origem concluiu que não houve prova ilícita …

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