JurisprudênciaIA

Ato normativo de tribunal pode alterar a competência dos Juizados da Fazenda Pública e impedir o ajuizamento na comarca de domicílio do autor?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Não. No IAC 10, o STJ decidiu que ato normativo local não pode alterar competências fixadas em lei federal ou na Constituição. A competência do Juizado Especial da Fazenda Pública, onde instalado, é absoluta, e o autor mantém a faculdade de ajuizar a ação no foro de seu domicílio, entre outras opções legais.

O que o STJ decidiu no IAC 10

O caso analisado envolvia a Resolução n. 9/2019 do TJMT, que concentrava em uma única vara de Várzea Grande as causas de saúde pública contra o estado, determinando a redistribuição de processos ajuizados em outras comarcas. O STJ declarou a resolução ilegal e inaplicável nesse ponto, reafirmando a Súmula 206: a criação de vara privativa ou especializada por norma local não altera a competência territorial resultante das leis de processo.

As teses fixadas deixam claro que prevalecem sobre qualquer norma local as competências de foro previstas em lei federal, como as da Lei da Ação Civil Pública, do CDC, do ECA, do Estatuto do Idoso e da Lei dos Juizados Especiais da Fazenda Pública.

A faculdade de escolha do autor contra a Fazenda

Nas causas de alçada do Juizado Especial da Fazenda Pública, a competência é absoluta nos foros em que ele tenha sido instalado. Dentro dessa lógica, o autor pode optar livremente por demandar o estado no foro de seu domicílio, no do fato gerador da demanda, no de situação da coisa litigiosa ou na capital do estado, observada a competência do Juizado se existente no local escolhido.

Também são absolutas, segundo o IAC 10, a competência da Vara da Infância e da Juventude do local da ação ou omissão, nas causas do ECA, e a do foro de domicílio do idoso nas causas sobre saúde, assistência social e atendimento especializado, ressalvadas a Justiça Federal e a competência originária dos tribunais superiores.

Efeitos práticos sobre processos redistribuídos

O STJ vedou novas redistribuições fundadas na resolução mato-grossense ou em normativo similar e determinou a devolução ao juízo de origem dos feitos já redistribuídos, salvo concordância expressa das partes. Processos ajuizados originariamente na vara especializada podem prosseguir ali, exceto quando a competência absoluta for do Juizado da Fazenda, da Vara da Infância ou do domicílio do idoso. Em situações concretas, os tribunais examinam caso a caso qual regra de competência incide.

O que dizem os tribunais

Informativo 718 do STJ · IAC 10

Tese A) Prevalecem sobre quaisquer outras normas locais, primárias ou secundárias, legislativas ou administrativas, as seguintes competências de foro: i) em regra, do local do dano, para ação civil pública (art. 2º da Lei n. 7.347/1985); ii) ressalvada a competência da Justiça Federal, em ações coletivas, do local onde ocorreu ou deva ocorrer o dano de impacto restrito, ou da capital do estado, se os danos forem regionais ou nacionais, submetendo-se ainda os casos à regra geral do CPC, em havendo competência concorrente (art. 93, I e II, do CDC). Tese B) São absolutas as competências: i) da Vara da Infância e da Juventude do local onde ocorreu ou deva ocorrer a ação ou a omissão, para as cau…”Ler na íntegra

Tese A) Prevalecem sobre quaisquer outras normas locais, primárias ou secundárias, legislativas ou administrativas, as seguintes competências de foro: i) em regra, do local do dano, para ação civil pública (art. 2º da Lei n. 7.347/1985); ii) ressalvada a competência da Justiça Federal, em ações coletivas, do local onde ocorreu ou deva ocorrer o dano de impacto restrito, ou da capital do estado, se os danos forem regionais ou nacionais, submetendo-se ainda os casos à regra geral do CPC, em havendo competência concorrente (art. 93, I e II, do CDC). Tese B) São absolutas as competências: i) da Vara da Infância e da Juventude do local onde ocorreu ou deva ocorrer a ação ou a omissão, para as causas individuais ou coletivas arroladas no ECA, inclusive sobre educação e saúde, ressalvadas a competência da Justiça Federal e a competência originária dos tribunais superiores (arts. 148, IV, e 209 da Lei n. 8.069/1990 e Tese n. 1.058/STJ); ii) do local de domicílio do idoso nas causas individuais ou coletivas versando sobre serviços de saúde, assistência social ou atendimento especializado ao idoso portador de deficiência, limitação incapacitante ou doença infectocontagiosa, ressalvadas a competência da Justiça Federal e a competência originária dos tribunais superiores (arts. 79 e 80 da Lei n. 10.741/2003 e 53, III, e, do CPC/2015); iii) do Juizado Especial da Fazenda Pública, nos foros em que tenha sido instalado, para as causas da sua alçada e matéria (art. 2º, § 4º, da Lei n. 12.153/2009); iv) nas hipóteses do item (iii), faculta-se ao autor optar livremente pelo manejo de seu pleito contra o estado no foro de seu domicílio, no do fato ou ato ensejador da demanda, no de situação da coisa litigiosa ou, ainda, na capital do estado, observada a competência absoluta do Juizado, se existente no local de opção (art. 52, parágrafo único, do CPC/2015, c/c o art. 2º, § 4º, da Lei n. 12.153/2009). Tese C) A instalação de vara especializada não altera a competência prevista em lei ou na Constituição Federal, nos termos da Súmula n. 206/STJ ("A existência de vara privativa, instituída por lei estadual, não altera a competência territorial resultante das leis de processo."). A previsão se estende às competências definidas no presente IAC n. 10/STJ. Tese D) A Resolução n. 9/2019/TJMT é ilegal e inaplicável quanto à criação de competência exclusiva em comarca eleita em desconformidade com as regras processuais, especificamente quando determina a redistribuição desses feitos, se ajuizados em comarcas diversas da 1ª Vara Especializada da Fazenda Pública da Comarca de Várzea Grande/MT. Em consequência: i) fica vedada a redistribuição à 1ª Vara Especializada da Fazenda Pública da Comarca de Várzea Grande/MT dos feitos propostos ou em tramitação em comarcas diversas ou em juizados especiais da referida comarca ou de outra comarca, cujo fundamento, expresso ou implícito, seja a Resolução n. 9/2019/TJMT ou normativo similar; ii) os feitos já redistribuídos à 1ª Vara Especializada de Várzea Grande/MT com fundamento nessa norma deverão ser devolvidos aos juízos de origem, salvo se as partes, previamente intimadas, concordarem expressamente em manter o processamento do feito no referido foro; iii) no que tange aos processos já ajuizados - ou que venham a ser ajuizados - pelas partes originariamente na 1ª Vara Especializada da Fazenda Pública da Comarca de Várzea Grande/MT, poderão prosseguir normalmente no referido juízo; iv) não se aplicam as previsões dos itens (ii) e (iii) aos feitos de competência absoluta, ou seja: de competência dos Juizados Especiais da Fazenda, das Varas da Infância e da Juventude ou do domicílio do idoso, nos termos da Tese B deste IAC n. 10/STJ.

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