JurisprudênciaIA

O Ministério Público pode recusar o ANPP porque o investigado não confessou no inquérito?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Não. No Tema 1303, o STJ fixou que a confissão do investigado na fase de inquérito não é exigência do art. 28-A do CPP para o cabimento do ANPP, sendo inválida a recusa da proposta baseada nessa ausência. A confissão pode ser formalizada na assinatura do acordo, perante o próprio Ministério Público, com defesa técnica.

Por que a confissão prévia não pode ser exigida

O STJ partiu da natureza negocial do ANPP: exigir que o investigado confesse antes mesmo de saber se haverá proposta e em quais termos seria obrigá-lo a cumprir antecipadamente uma obrigação sem certeza da contrapartida, já que o acordo não é direito subjetivo do investigado. A confissão continua indispensável ao acordo, mas como elemento do negócio, não como condição prévia.

A Corte também invocou a garantia de não autoincriminação do art. 8.2, g, da Convenção Americana de Direitos Humanos: a confissão só pode ser uma faculdade exercida de forma informada. Exigi-la no inquérito incentivaria confissões em ambiente inquisitorial, muitas vezes sem defesa técnica, na contramão do esforço do STJ de racionalizar o uso da confissão extrajudicial.

Como fica na prática

Pela segunda tese do Tema 1303, a confissão para fins de ANPP pode ser formalizada no momento da assinatura do acordo, perante o próprio órgão ministerial, depois que o investigado, assistido por advogado ou defensor, conhece, avalia e aceita a proposta. O silêncio no inquérito, portanto, não fecha a porta do acordo.

Isso não significa direito automático ao ANPP: o Ministério Público ainda avalia os demais requisitos legais e as peculiaridades do caso. O que a tese veda é especificamente a recusa fundada na falta de confissão anterior, e eventuais outras justificativas de recusa continuam sendo examinadas caso a caso.

O que dizem os tribunais

Informativo 843 do STJ · Tema 1.303

1. A confissão pelo investigado na fase de inquérito policial não constitui exigência do art. 28-A do Código de Processo Penal para o cabimento de Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), sendo inválida a negativa de formulação da respectiva proposta baseada em sua ausência. 2. A formalização da confissão para fins do ANPP pode se dar no momento da assinatura do acordo, perante o próprio órgão ministerial, após a ciência, avaliação e aceitação da proposta pelo beneficiado, devidamente assistido por defesa técnica, dado o caráter negocial do instituto.

Decisões recentes sobre o tema

Selecionadas automaticamente na nossa base e atualizadas com frequência.

Acórdão

T6 - SEXTA TURMA · Rel. SEBASTIÃO REIS JÚNIOR · j. 04/08/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM PETIÇÃO EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL (ANPP). ART. 28-A DO CPP. OFERTA FORMAL E REGULAR PELO MINISTÉRIO PÚBLICO. CIÊNCIA DA DEFESA. NÃO COMPARECIMENTO À AUDIÊNCIA DESIGNADA PARA FORMALIZAÇÃO E HOMOLOGAÇÃO DO AJUSTE. COMPORTAMENTO INEQUÍVOCO DE REJEIÇÃO DA PROPOSTA. PRECLUSÃO CONSUMATIVA. TEMAS N. 1.098 E 1.303/STJ. INAPLICABILIDADE. REABERTURA DA FASE NEGOCIAL. IMPOSSIBILIDADE. NOVA REMESSA DOS AUT…

Acórdão

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Acórdão

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