JurisprudênciaIA

Ler em audiência o depoimento que a vítima prestou na delegacia gera nulidade do processo?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Não, em regra. Segundo o STJ, em julgado divulgado em informativo de jurisprudência, a leitura em audiência do depoimento que a vítima prestou na delegacia não configura nulidade processual, salvo demonstração de efetivo prejuízo ao réu. Também não há cerceamento de defesa quando o juiz intervém para proteger a dignidade da vítima, nos termos da Lei 14.245/2021.

Por que a leitura do depoimento não anula o processo

Não há vedação legal à leitura, em audiência, de depoimento prestado anteriormente na fase policial, prática comum no foro para esclarecer pontos relevantes. Para o STJ, ouvir a vítima ou testemunha valendo-se do depoimento investigativo não gera, por si só, nulidade da prova ou do ato processual.

A valoração do conteúdo desse depoimento é outra questão: cabe ao juiz da causa, na sentença, apreciar o conjunto probatório colhido sob contraditório. Além disso, vale o princípio pas de nullité sans grief, positivado no art. 563 do CPP: mesmo a nulidade absoluta exige demonstração de efetivo prejuízo.

Intervenção do juiz para proteger a vítima

No caso julgado, a defesa pôde formular perguntas à ofendida, mas a magistrada interveio e indeferiu questionamento para garantir a observância da Lei 14.245/2021, que coíbe atos atentatórios à dignidade de vítimas e testemunhas. O STJ entendeu que essa condução não caracteriza cerceamento de defesa, pois o advogado manteve a prerrogativa de prosseguir com as indagações dentro dos limites legais.

Na prática, alegações de nulidade nesse contexto dependem de prova concreta de prejuízo e de restrição arbitrária ao contraditório, o que os tribunais examinam caso a caso.

O que dizem os tribunais

Informativo 852 do STJ

1. A leitura de depoimento prestado pela vítima em sede policial durante a audiência de instrução e julgamento não configura nulidade processual, salvo se ficar demonstrado efetivo prejuízo ao réu. 2. Tendo a defesa oportunidade de formular questionamentos, a intervenção do magistrado para proteger a dignidade da vítima, em atenção às disposições da Lei n. 14.245/2021, não acarreta cerceamento de defesa.

Decisões recentes sobre o tema

Selecionadas automaticamente na nossa base e atualizadas com frequência.

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministra Maria Marluce Caldas · j. 24/06/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EM HABEAS CORPUS. NULIDADE DE DEPOIMENTO EM INQUÉRITO POLICIAL. AUSÊNCIA DE ADVERTÊNCIA QUANTO AO DIREITO AO SILÊNCIO E DE ASSISTÊNCIA DE ADVOGADO. NULIDADE RELATIVA. NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO DE PREJUÍZO. INVESTIGAÇÃO POR LAVAGEM DE DINHEIRO. RECURSO DESPROVIDO.I. Caso em exame1. Agravo regimental interposto por investigado contra decisão que negara provimento a recurso em habeas corpus, mantendo acórdão que havia dene…

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Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministra Maria Marluce Caldas · j. 15/06/2026

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HABEAS CORPUS. WRIT IMPETRADO CONTRA ACÓRDÃO TRANSITADO EM JULGADO. SUBSTITUTIVO DE REVISÃO CRIMINAL. ROUBO E LATROCÍNIO MAJORADOS. CERCEAMENTO DE DEFESA NÃO DEMONSTRADO. PROCEDIMENTO REGULAR. NOMEAÇÃO DE DEFENSOR DATIVO PARA ACOMPANHAMENTO DE PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS. POSTERIOR COMPARECIMENTO DO RÉU AO PROCESSO E CONSTITUIÇÃO DE ADVOGADO. NÃO COMPARECIMENTO À AUDIÊNCIA. REVELIA. PRETENSÃO DE INCURSÃO NO ACERVO-PROBATÓRIO INCABÍVEL NA VIA ELEITA. PLEITO DE NULIDADE PELO …

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DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO RECEBIDOS COMO AGRAVO REGIMENTAL. AUSÊNCIA DE DEPOIMENTO ESPECIAL. LEI N. 13.431/2017. NULIDADE. NAO OCORRÊNCIA. DEPOIMENTO ESPECIAL COMO DIREITO DA VÍTIMA, NAO DO ACUSADO. PROTEÇÃO CONTRA REVITIMIZAÇÃO. PRINCÍPIO PAS DE NULLITÉ SANS GRIEF. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO CONCRETO. CONJUNTO PROBATÓRIO ROBUSTO PRODUZIDO SOB CONTRADITÓRIO. DISTINÇÃO DOS PRECEDENTES INVOCADOS PELA…

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