JurisprudênciaIA

A oitiva do adolescente deve ser o último ato da instrução no processo por ato infracional?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Sim. O STJ, em informativo de jurisprudência, revisou seu entendimento para acompanhar o STF e passou a exigir que a oitiva do adolescente representado seja o último ato da instrução no procedimento de apuração de ato infracional, aplicando o art. 400 do CPP no lugar da regra especial do art. 184 do ECA.

Por que a regra do CPP prevaleceu sobre o ECA

O ECA prevê uma audiência de apresentação logo após o oferecimento da representação, o que fazia a oitiva do adolescente inaugurar a instrução. Pelo critério da especialidade, o STJ vinha aplicando esse rito próprio e afastando o art. 400 do CPP, que manda interrogar o acusado ao final da instrução criminal.

O STF, porém, passou a aplicar ao procedimento infracional a lógica de que ouvir o acusado por último permite uma defesa mais eficaz. Diante disso, o STJ revisou sua orientação: o adolescente deve prestar declarações depois de conhecer todo o acervo probatório, com melhores condições de exercer a autodefesa ou o direito ao silêncio.

O argumento do tratamento não mais gravoso

A mudança também se apoia na regra de que o adolescente não pode receber tratamento mais gravoso que o conferido ao adulto, prevista na Lei do Sinase (art. 35, I, da Lei 12.594/2012) e nas Diretrizes de Riad. Se o réu adulto é interrogado ao final da instrução, negar essa garantia ao adolescente violaria o contraditório e a ampla defesa.

O que isso significa na prática

A inversão da ordem, com oitiva do adolescente no início da instrução, pode gerar nulidade, mas o próprio STJ ressalva que a alegação defensiva deve observar os princípios da oportunidade e do prejuízo (pas de nullité sans grief). Ou seja, os tribunais examinam caso a caso se houve prejuízo concreto e se a defesa arguiu o vício no momento adequado.

O que dizem os tribunais

Informativo 766 do STJ · HC 127.900

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Apuração de atos infracionais. Momento da oitiva do representado. Último ato da instrução. Recentes precedentes do STF. Mudança do entendimento do STJ. Adequação. Prevalência do art. 400 do CPP sobre o regramento especial (art. 184 do ECA). Proibição de tratamento mais gravoso ao adolescente. A oitiva do representado deve ser o último ato da instrução no procedimento de apuração de ato infracional. O art. 400 do Código de Processo Penal, na redação dada pela Lei n. 11.719/2008, dispõe que o interrogatório será realizado ao final da instrução criminal. Contudo, segundo a regra contida no art. 394, § 2º, do mesmo diploma processual, "aplica-se a todo…”Ler na íntegra

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Apuração de atos infracionais. Momento da oitiva do representado. Último ato da instrução. Recentes precedentes do STF. Mudança do entendimento do STJ. Adequação. Prevalência do art. 400 do CPP sobre o regramento especial (art. 184 do ECA). Proibição de tratamento mais gravoso ao adolescente. A oitiva do representado deve ser o último ato da instrução no procedimento de apuração de ato infracional. O art. 400 do Código de Processo Penal, na redação dada pela Lei n. 11.719/2008, dispõe que o interrogatório será realizado ao final da instrução criminal. Contudo, segundo a regra contida no art. 394, § 2º, do mesmo diploma processual, "aplica-se a todos os processos o procedimento comum, salvo disposições em contrário deste Código ou de lei especial". Nessa exceção, está incluído o procedimento de apuração de ato infracional, que é regulado por lei especial (Lei n. 8.069/1990) e atrai a aplicação das normas do Código de Processo Penal apenas de forma subsidiária, conforme autoriza o art. 152 da referida lei. No que diz respeito especificamente ao momento para a oitiva do representado, o art. 184 do Estatuto da Criança e do Adolescente, diferentemente do Código de Processo Penal, prevê que: "oferecida a representação, a autoridade judiciária designará audiência de apresentação do adolescente, decidindo, desde logo, sobre a decretação ou manutenção da internação, observado o disposto no art. 108 e parágrafo". Nesse sentido, em regra, em caso de antinomia de segundo grau aparente, havendo conflito entre uma norma especial anterior (art. 184 da Lei n. 8.069/1990) e outra geral posterior (art. 400 do CPP, com a redação dada pela Lei n. 11.719/2008), prevalecerá o critério da especialidade. Logo, com base nos dispositivos legais aqui citados, a orientação jurisprudencial desta Corte Superior consolidou-se no seguinte sentido: se para o julgamento dos atos infracionais há rito próprio, no qual a oitiva do representado inaugura a instrução, é de se afastar o rito ordinário (art. 400 do CPP) nesses casos, em razão da especialidade. No entanto, o Supremo Tribunal Federal, em recentes decisões monocráticas, tem aplicado a orientação firmada no HC 127.900/AM ao procedimento de apuração de ato infracional, sob o fundamento de que o art. 400 do Código de Processo Penal possibilita ao representado exercer de modo mais eficaz a sua defesa e, por essa razão, em uma aplicação sistemática do direito, tal dispositivo legal deve suplantar o estatuído no art. 184 da Lei n. 8.069/1990. Nessa conjuntura, é necessária a revisão do entendimento consolidado no Superior Tribunal de Justiça para adequá-lo à jurisprudência atual da Suprema Corte, no sentido de que a oitiva do representado deve ser o último ato da instrução no procedimento de apuração de ato infracional. Assim, o adolescente irá prestar suas declarações após ter contato com todo o acervo probatório produzido, tendo maiores elementos para exercer sua autodefesa ou, se for caso, valer-se do direito ao silêncio, sob pena de evidente prejuízo à concretização dos princípios do contraditório e da ampla defesa. Ademais, é relevante mencionar que a aplicação do art. 400 do Código de Processo Penal ao procedimento de apuração de ato infracional se justifica também porque o adolescente não pode receber tratamento mais gravoso do aquele conferido ao adulto, de acordo com o art. 35, inciso I, da Lei n. 12.594/2012 (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo) e o item 54 das Diretrizes das Nações Unidas para a Prevenção da Delinquência Juvenil (Diretrizes de Riad). De todo modo, conforme entendimento majoritário desta Corte Superior, é necessário que a insurgência defensiva, com relação a eventual vício pela inversão da ordem ora definida, observe os princípios informativos das nulidades processuais, notadamente o princípio da oportunidade e o princípio do prejuízo ou transcendência ( pas de nullité sans grief ). Código de Processo Penal, arts. 394 e 400 Lei n. 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), arts. 108 e 184 Lei n. 12.594/2012 (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), art. 35, I Diretrizes das Nações Unidas para a Prevenção da Delinquência Juvenil (Diretrizes de Riad), item 54

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