JurisprudênciaIA

Prescreve a ação de indenização movida diretamente contra o agente público que praticou tortura na ditadura militar?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Sim, prescreve. O STJ, em informativo, definiu que a imprescritibilidade não se aplica às ações em que se pretende a responsabilização direta do agente público que praticou tortura durante o regime militar. A regra de imprescritibilidade da Súmula 647 do STJ vale para as ações contra o Estado, fundadas na responsabilidade objetiva, não contra o agente pessoalmente.

A distinção entre acionar o Estado e acionar o agente

A Súmula 647 do STJ declara imprescritíveis as ações indenizatórias por danos morais e materiais decorrentes de perseguição política com violação de direitos fundamentais no regime militar. Esse entendimento, porém, foi construído em ações movidas contra o Estado, com base na responsabilidade objetiva, afastando a prescrição quinquenal do Decreto 20.910/1932.

Quando a vítima ou seus sucessores demandam diretamente o agente público que praticou o ato de tortura, a lógica muda: trata-se de responsabilização no âmbito do direito privado. Para o STJ, admitir imprescritibilidade nesse caso perpetuaria conflitos entre indivíduos, alcançaria herdeiros nos limites da herança e contrariaria o processo de anistia e pacificação nacional que marcou a redemocratização.

Fundamentos e limites do entendimento

O julgado se apoia também na ADPF 153, em que o STF assentou a constitucionalidade da anistia aos agentes da repressão quanto a crimes comuns, sem afastar a responsabilidade objetiva do Estado, e no Tema 666 do STF, segundo o qual a imprescritibilidade do ressarcimento ao erário não se aplica à reparação de danos por ilícito civil. No caso concreto, a ação contra o chefe do DOI-CODI foi ajuizada mais de 22 anos após a Constituição de 1988, sem obstáculo que impedisse o ajuizamento anterior.

O STJ também afastou a tese de imprescritibilidade por natureza declaratória: havendo pedido expresso de indenização, a pretensão é condenatória e se sujeita à prescrição. Na prática, as ações reparatórias por atos da ditadura continuam imprescritíveis quando dirigidas contra o Estado; contra o agente, individualmente, o prazo prescricional corre normalmente.

O que dizem os tribunais

Informativo 799 do STJ · REsp 1.434.498

A imprescritibilidade não se aplica às ações em que se pretende a responsabilização direta do agente público que praticou ato de tortura durante o regime militar.

Decisões recentes sobre o tema

Selecionadas automaticamente na nossa base e atualizadas com frequência.

Acórdão

Segunda Turma · Rel. Ministro Afrânio Vilela · j. 09/12/2025

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. AJUIZAMENTO DA AÇÃO APENAS CONTRA O AGENTE PÚBLICO. PARTICULAR INCLUÍDO NA AÇÃO APÓS A EMENDA DA INICIAL. AUSÊNCIA DE INTERRUPÇÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL. PROSSEGUIMENTO DA AÇÃO PARA FINS DE RESSARCIMENTO AO ERÁRIO. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. 1. Recurso especial interposto contra acórdão que negou provimento a agravo de instrumento, interposto pela recorrente contra decisão…

Acórdão

Sexta Turma · Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz · j. 12/08/2025

AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. TORTURA. PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO EXECUTÓRIA. EFEITO SECUNDÁRIO AUTOMÁTICO DA CONDENAÇÃO. PERDA DO CARGO PÚBLICO. SUBSISTÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A declaração de extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão executória impossibilita o cumprimento da pena, mas não rescinde a sentença penal condenatória nem alcança os efeitos secundários dela decorrentes, como é o caso da perda do…

Acórdão

Sexta Turma · Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro · j. 20/02/2024

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DIREITO PENAL. PROCESSO PENAL. TORTURA-CRIME. PEDIDO DE DESCLASSIFICAÇÃO PARA O CRIME DE LESÃO CORPORAL. SÚMULA N. 284/STF. 1. Do pedido de desclassificação do crime de tortura para o de lesão corporal não se pode conhecer, tendo em vista que a deficiente fundamentação das razões recursais impede a exata compreensão e delimitação da controvérsia. Incidência da Súmula n. 284/STF. 2. Com efeito, argumenta a defesa que o réu não a…

Acórdão

Quarta Turma · Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti · j. 29/11/2023

RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL. INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS. PERSEGUIÇÃO POLÍTICA. PRISÃO. TORTURA. MORTE. PERÍODO DE EXCEÇÃO INSTAURADO EM 1964. AÇÃO DIRIGIDA DIRETAMENTE CONTRA O AGENTE PÚBLICO. IMPOSSIBILIDADE. ENTENDIMENTO VINCULANTE DO STF NO RE 1.027.633/SP (TEMA 940) . CAUSA COM PEDIDO CONDENATÓRIO E NÃO MERAMENTE DECLARATÓRIO, FUNDAMENTADA NO DIREITO CIVIL. IMPRESCRITIBILIDADE AFASTADA. SÚMULA 647/STJ. INCIDÊNCIA RESTRITA AO DIREITO PÚBLICO. FATOS OCORRIDOS EM 1971. AÇ…

Acórdão

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ADMINISTRATIVO. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. PERSEGUIÇÃO POLÍTICA OCORRIDA DURANTE O REGIME DE EXCEÇÃO DE 1964. IMPRESCRITIBILIDADE. INAPLICABILIDADE DO ART. 1º DO DECRETO 20.910/1932. ACUMULAÇÃO DE REPARAÇÃO ECONÔMICA COM INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. POSSIBILIDADE. PRECEDENTES. OMISSÃO DO JULGADO. NÃO OCORRÊNCIA I. Na origem, trata-se de ação de indenização por danos morais contra a União, no valor de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais), em decorrência de perseguição e tor…

Acórdão

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