JurisprudênciaIA

Réu pode ser pronunciado ao júri só com base em testemunho de ouvir dizer?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Não. O STJ não admite pronúncia fundada exclusivamente em testemunho indireto, de quem apenas ouviu dizer sobre a autoria, sem indicação dos informantes e sem outros elementos que corroborem essa versão. Nem o princípio in dubio pro societate autoriza mandar alguém a júri com base apenas em relatos de terceiros.

O limite do in dubio pro societate

Na primeira fase do júri, a dúvida razoável sobre a autoria em regra favorece a acusação e leva o caso ao Tribunal Popular, que fará o exame aprofundado da prova. Ainda assim, a pronúncia exige prova da materialidade e indícios suficientes de autoria, e o testemunho de ouvir dizer, sozinho, não atinge esse patamar mínimo.

Para o STJ, admitir a pronúncia baseada apenas em relatos indiretos, sem identificação de quem teria presenciado os fatos e sem qualquer elemento de corroboração, é incompatível com o Estado Democrático de Direito.

O que isso significa na prática

O testemunho indireto pode compor o conjunto probatório, mas precisa vir acompanhado da indicação dos informantes e de outros elementos que confirmem a versão. Sem esse reforço, a impronúncia é o caminho.

A suficiência dos indícios é examinada caso a caso pelos tribunais, que verificam se existe algum lastro probatório autônomo além do que as testemunhas apenas ouviram de terceiros.

O que dizem os tribunais

Informativo 709 do STJ · REsp 1.674.198

Pronúncia. Vigência do princípio "in dubio pro societa". Indícios de autoria baseados tão somente em depoimentos indiretos (ouvir dizer). Impossibilidade. Não é cabível a pronúncia fundada exclusivamente em testemunhos indiretos de "ouvir dizer". Discute-se nos autos se, na primeira fase do rito do Júri, em que prevalece o princípio do jus accusationis , consubstanciado no brocardo in dubio pro societate , de forma que a dúvida razoável acerca da autoria delitiva, enseja a submissão do caso controvertido ao Tribunal do Júri, órgão responsável por perquirir, em profundidade, a prova angariada nos autos, seria viável a imputação do crime ao acusado baseada, exclusivamente, em testemunho indire…”Ler na íntegra

Pronúncia. Vigência do princípio "in dubio pro societa". Indícios de autoria baseados tão somente em depoimentos indiretos (ouvir dizer). Impossibilidade. Não é cabível a pronúncia fundada exclusivamente em testemunhos indiretos de "ouvir dizer". Discute-se nos autos se, na primeira fase do rito do Júri, em que prevalece o princípio do jus accusationis , consubstanciado no brocardo in dubio pro societate , de forma que a dúvida razoável acerca da autoria delitiva, enseja a submissão do caso controvertido ao Tribunal do Júri, órgão responsável por perquirir, em profundidade, a prova angariada nos autos, seria viável a imputação do crime ao acusado baseada, exclusivamente, em testemunho indireto, ou seja, em relatos de terceiros que ouviram dizer sobre a autoria delitiva. Entretanto, entende-se que para a pronuncia, não obstante a exigência da comprovação da materialidade e da existência de indícios suficientes de autoria nos crimes submetidos ao rito do Tribunal do Júri, órgão constitucionalmente competente para julgar os crimes dolosos contra a vida, sabe-se que esta Corte Superior não admite a pronúncia fundada, apenas, em depoimento de "ouvir dizer", sem que haja indicação dos informantes e de outros elementos que corroborem tal versão. Nesse sentido: "Muito embora a análise aprofundada dos elementos probatórios seja feita somente pelo Tribunal Popular, não se pode admitir, em um Estado Democrático de Direito, a pronúncia baseada, exclusivamente, em testemunho indireto (por ouvir dizer) como prova idônea, de per si, para submeter alguém a julgamento pelo Tribunal Popular"(REsp 1674198/MG, Rel. Ministro Rogério Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 05/12/2017, DJe 12/12/2017).

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