JurisprudênciaIA

Cabe acordo de não persecução penal em ação penal privada depois de recebida a queixa-crime?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Sim. O STJ, em julgado divulgado em informativo, admitiu o acordo de não persecução penal em ação penal privada mesmo após o recebimento da queixa-crime, por analogia benéfica ao réu. O Ministério Público tem legitimidade supletiva para propor o acordo quando o querelante se mantém inerte ou recusa a medida sem justificativa.

Por que o ANPP alcança a ação penal privada

O art. 28-A do CPP não disciplinou expressamente o ANPP na ação penal privada, mas o STJ entendeu que a lacuna não equivale a proibição, aplicando analogia in bonam partem. Três fundamentos sustentam a extensão: a persecução penal continua manifestando o poder punitivo estatal mesmo quando exercida pelo ofendido; negar o acordo a réus de ações privadas em situações idênticas violaria a isonomia; e o caráter restaurativo do instituto se ajusta ainda melhor a uma ação em que o ofendido já faz juízo de conveniência sobre processar.

A legitimidade supletiva do Ministério Público

O querelante não pode recusar arbitrariamente o acordo, pois a ação penal privada não é instrumento de vingança. Por isso, o Ministério Público, como fiscal da lei, pode atuar subsidiariamente em três hipóteses: recusa injustificada do querelante, silêncio ou inércia diante da possibilidade do acordo, e imposição de condições abusivas ou desproporcionais que inviabilizem a celebração.

Essa atuação é supletiva e excepcional, sem transferir ao Ministério Público a titularidade da ação. O julgado também distingue o ANPP da transação penal: a jurisprudência que reserva a transação ao querelante não se aplica automaticamente ao acordo de não persecução, dada a natureza jurídica distinta dos institutos.

O que isso significa na prática

Querelados que preencham os requisitos do art. 28-A do CPP podem pleitear o ANPP mesmo depois de recebida a queixa-crime, e a recusa do querelante precisa ser fundamentada. O cabimento concreto, porém, depende do preenchimento dos requisitos legais, e os tribunais examinam caso a caso a razoabilidade da postura do querelante e a pertinência da intervenção supletiva do Ministério Público.

O que dizem os tribunais

Informativo 843 do STJ

É cabível acordo de não persecução penal em ação penal privada, mesmo após o recebimento da denúncia, tendo o Ministério Público legitimidade supletiva para propor a medida quando houver inércia ou recusa infundada do querelante.

Decisões recentes sobre o tema

Selecionadas automaticamente na nossa base e atualizadas com frequência.

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministra Maria Marluce Caldas · j. 09/06/2026

Direito processual penal. Agravo regimental. Queixa-crime. Custas processuais. Decadência. Justiça gratuita. Perspectiva de gênero.Agravo regimental desprovido.I. Caso em exame1. Agravo regimental interposto contra decisão que deu provimento a recurso especial para reformar acórdão e sentença, afastando a extinção da punibilidade por decadência do direito de queixa e determinando o prosseguimento da persecução penal privada com possibilidade de regularização do preparo e conc…

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministro Messod Azulay Neto · j. 25/03/2026

Direito processual penal. Agravo regimental em recurso ordinário em habeas corpus. AÇÃO PENAL PRIVADA. SUPOSTOS CRIMES CONTRA A HONRA. DECADÊNCIA E INÉPCIA DA QUEIXA-CRIME. TRANCAMENTO PREMATURO. INVIABILIDADE. Agravo regimental desprovido. I. Caso em exame 1. O recurso. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática que negara provimento a recurso ordinário em habeas corpus, por meio do qual a agravante buscava o trancamento de ação penal privada instaurada em razão…

Acórdão

Sexta Turma · Rel. Ministro Carlos Pires Brandão · j. 11/03/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO PENAL PRIVADA SUBSIDIÁRIA DA PÚBLICA. AUSÊNCIA DE INÉRCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. PRAZO DO ART. 46 DO CPP. NATUREZA JURÍDICA IMPRÓPRIA. LEGITIMIDADE ATIVA NÃO CONFIGURADA. RECURSO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática que conheceu do agravo para não conhecer do recurso especial manejado contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do …

Acórdão

Corte Especial · Rel. Ministro Luis Felipe Salomão · j. 11/11/2025

PROCESSUAL PENAL. QUEIXA SUBSIDIÁRIA DE AÇÃO PENAL PÚBLICA. ART. 5º, INCISO LIX DA CF/88 E ART. 29 DO CPP. DESCABIMENTO. INVESTIGAÇÕES ANTERIORMENTE ARQUIVADAS PELO MINISTÉRIO PÚBLICO. INÉRCIA DO PARQUET. INEXISTÊNCIA. QUEIXA-CRIME REJEITADA. I - Caso em julgamento: queixa-crime subsidiária de ação penal pública, na qual se imputa a Desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região a prática do crime de denunciação caluniosa (art. 339 do Código Penal). II - Questão em d…

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik · j. 08/10/2025

Direito processual penal. Embargos de declaração. Acordo de não persecução penal EM AÇÃO PENAL PRIVADA. OBSCURIDADE. OMISSÃO. CONTRADIÇÃO. EMBARGOS REJEITADOS. I. Caso em exame 1. Embargos de declaração opostos contra acórdão da Quinta Turma que negou provimento a recurso especial, mantendo decisão do TJDFT que validou a oferta de acordo de não persecução penal (ANPP) pelo Ministério Público em ação penal privada. 2. Fato relevante. A queixa-crime foi proposta e recebida já n…

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik · j. 08/10/2025

Direito processual penal. Embargos de declaração. Acordo de não persecução penal em ação penal privada. OMISSÃO. Legitimidade do Ministério Público. Embargos rejeitados. I. Caso em exame 1. Embargos de declaração opostos pelo Ministério Público Federal contra acórdão da Quinta Turma que negou provimento ao recurso especial, validando a oferta de acordo de não persecução penal (ANPP) pelo Ministério Público em ação penal privada. 2. Fato relevante. A queixa-crime foi proposta …

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