JurisprudênciaIA

É possível anular acordo de não persecução penal já homologado alegando que as cláusulas são muito onerosas?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Não, em regra. O STJ decidiu que não é possível rediscutir cláusulas de acordo de não persecução penal validamente celebrado e homologado sob alegação de onerosidade excessiva. A tentativa posterior de anulação viola a boa-fé objetiva e a vedação ao comportamento contraditório, sobretudo quando o investigado foi assistido por defesa técnica ao aceitar o acordo.

Boa-fé objetiva e vedação ao comportamento contraditório

O ANPP, previsto no art. 28-A do CPP, é negócio jurídico pré-processual entre Ministério Público e investigado, expressão do modelo consensual de justiça criminal: o investigado, assistido por defesa técnica, aceita condições em troca do não oferecimento da denúncia. Aceitar o acordo e depois alegar que as cláusulas são muito onerosas configura comportamento contraditório, incompatível com a boa-fé objetiva que rege as relações processuais.

O STJ reforça o argumento com o art. 565 do CPP, segundo o qual nenhuma parte pode arguir nulidade a que deu causa. No caso julgado, o investigado estava assistido por defensor público ao celebrar o acordo, que previa perdimento de motocicleta e prestação de serviços à comunidade, e ainda assim o aceitou nos termos propostos.

Segurança jurídica e a via processual inadequada

Para a Corte, permitir a reanálise da proporcionalidade das condições após a homologação comprometeria a segurança jurídica e a credibilidade do instituto, desestimulando o Ministério Público a oferecer novos acordos e prejudicando futuros investigados que poderiam se beneficiar dessa alternativa à persecução tradicional.

A decisão também destaca que o habeas corpus, por seu rito célere, não é via adequada para rediscutir cláusulas de acordo validamente celebrado, salvo demonstração de flagrante ilegalidade. Hipóteses de vício real na formação do acordo dependem do caso concreto e são examinadas pelos tribunais caso a caso.

O que dizem os tribunais

Informativo 844 do STJ · RHC 196.094

Não é possível rediscutir cláusulas de acordo de não persecução penal validamente celebrado e homologado, sob pena de violação do princípio da boa-fé objetiva e da vedação ao comportamento contraditório.

Decisões recentes sobre o tema

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Acórdão

T5 - QUINTA TURMA · Rel. MARIA MARLUCE CALDAS · j. 17/06/2026

Direito processual penal. Agravo regimental em recurso em habeas corpus. ANPP integralmente cumprido. Alegada nulidade por ausência de audiência de homologação. Descabimento. Prejuízo não demonstrado.Nulidade de algibeira. Recurso desprovido.I. Caso em exame1. O agravo regimental. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática de relatoria que não conheceu de recurso em habeas corpus e manteve acórdão denegatório da ordem em writ originário, por meio do qual se busca…

Acórdão

T6 - SEXTA TURMA · Rel. SEBASTIÃO REIS JÚNIOR · j. 11/06/2026

RECURSO ESPECIAL. DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. CRIME DE RESPONSABILIDADE DE PREFEITO POR NEGAR EXECUÇÃO DE LEI. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. CONTROLE JUDICIAL DA HOMOLOGAÇÃO. EXISTÊNCIA DE PROVAS E INDÍCIOS SUFICIENTES. DISCRICIONARIEDADE REGRADA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. BOA-FÉ PROCESSUAL. IN DUBIO PRO SOCIETATE. AUSÊNCIA DE IMPEDIMENTO OBJETIVO PARA O ACORDO. RETORNO DOS AUTOS PARA AVALIAÇÃO DO ANPP E REAPRECIAÇÃO DOS EMBARGOS PREVIAMENTE ANULADOS NA ORIGEM. PARECER DO…

Acórdão

T6 - SEXTA TURMA · Rel. ANTONIO SALDANHA PALHEIRO · j. 09/06/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. PRECLUSÃO CONSUMATIVA. BOA-FÉ OBJETIVA. COOPERAÇÃO PROCESSUAL. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO.1. O Superior Tribunal de Justiça firmou a compreensão de que o pedido de celebração de acordo de não persecução penal (art. 28-A do CPP) deve ser apresentado na primeira oportunidade de intervenção da defesa nos autos, sob pena de preclusão consumativa.2. Constatado que a denúncia…

Acórdão

T3 - TERCEIRA TURMA · Rel. MOURA RIBEIRO · j. 01/06/2026

CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE RESTITUIÇÃO. CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE BENS MÓVEIS. ACORDO JUDICIAL ANULADO. EVICÇÃO. ENRIQUECIMENTO ILÍCITO. BOA-FÉ OBJETIVA. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 489 E 1.022 DO CPC. NÃO CONFIGURADA. REEXAME DE PROVAS E INTERPRETAÇÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS. IMPOSSIBILIDADE. INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS 5 E 7 DO STJ. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. AGRAVO CONHECIDO. RECUR…

Acórdão

T6 - SEXTA TURMA · Rel. SEBASTIÃO REIS JÚNIOR · j. 27/05/2026

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Acórdão

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AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO ANULATÓRIA DE TRANSAÇÃO EXTRAJUDICIAL COM PEDIDO SUBSIDIÁRIO DE REVISÃO. PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA 211/STJ. CLÁUSULAS CONTRATUAIS E PREMISSAS FÁTICAS. SÚMULAS 5 E 7/STJ. DECISÃO MANTIDA.1. Agravo interno contra decisão que negou provimento ao agravo em recurso especial por falta de prequestionamento do art. 406 do Código Civil e pela incidência das Súmulas 5 e 7 do STJ quanto às cláusulas 4 a 7 do acordo.2. Ca…

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