JurisprudênciaIA

Réu pode ser pronunciado ao Tribunal do Júri só com testemunhos de ouvir dizer e clamor popular?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Não. Segundo o STJ, em entendimento divulgado em informativo de jurisprudência, a pronúncia não pode se apoiar apenas em testemunhos indiretos, de ouvir dizer, e no clamor popular. Submeter o acusado ao júri quando os indícios da fase inquisitorial não são corroborados por elementos colhidos em juízo configura manifesto excesso acusatório.

O declínio do in dubio pro societate

Durante muito tempo se afirmou que, na fase de pronúncia, a dúvida deveria favorecer a sociedade. O STF e o STJ vêm arrefecendo essa orientação, tratando o in dubio pro societate como pseudonorma, incompatível com a legalidade, o devido processo legal e a presunção de inocência.

Pela leitura sistemática dos arts. 413 e 414 do CPP, a pronúncia exige um juízo de probabilidade da acusação, e não de mera possibilidade ou prospecção.

Por que o testemunho de ouvir dizer não basta

Elementos colhidos exclusivamente no inquérito, como a confissão extrajudicial, ou fundados em testemunhos indiretos (hearsay testimony), não são aptos, segundo os arts. 155 e 413 do CPP, a amparar a pronúncia. É preciso que os indícios mínimos de autoria sejam corroborados por provas produzidas na fase processual, sob contraditório.

O STF, no Tema 154, já assentou que a impronúncia por falta de justa causa não viola a atribuição acusatória do Ministério Público nem usurpa a competência constitucional do júri.

O que isso significa na prática

A defesa pode impugnar a pronúncia que se sustenta apenas em relatos indiretos e comoção social, e os tribunais avaliam em cada caso se o standard probatório de probabilidade foi atingido. O que o entendimento veda é o envio automático do acusado ao Conselho de Sentença sob o rótulo da dúvida em favor da sociedade.

O que dizem os tribunais

Informativo 825 do STJ · RE 593.443

A submissão do acusado ao Tribunal do Júri, quando os indícios mínimos de autoria delitiva inquisitorial não são corroborados por elementos colhidos na fase processual, configura manifesto excesso acusatório.

Decisões recentes sobre o tema

Selecionadas automaticamente na nossa base e atualizadas com frequência.

Acórdão

Quinta Turma · Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca · j. 17/06/2026

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Acórdão

Sexta Turma · Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior · j. 17/06/2026

RECURSO ESPECIAL. DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 413 E 414, AMBOS DO CPP. HOMICÍDIO QUALIFICADO E OCULTAÇÃO DE CADÁVER. PRONÚNCIA MANTIDA. JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE. MATERIALIDADE COMPROVADA. INDÍCIOS SUFICIENTES DE AUTORIA. CONFISSÃO EXTRAJUDICIAL DE CORRÉU CORROBORADA EM JUÍZO POR POLICIAL. UTILIZAÇÃO DE ELEMENTOS INQUISITORIAIS COMO SUPORTE DA PRONÚNCIA. TESTEMUNHO INDIRETO E RECONHECIMENTO FOTOGRÁFICO VALORADOS COMO INDÍCIOS. DISCUSSÃO SOBRE HEARSAY R…

Acórdão

j. 03/06/2026

AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO. TRIBUNAL DO JÚRI. ANULAÇÃO DO PROCESSO DESDE A PRONÚNCIA. DECISÃO MONOCRÁTICA QUE RECONHECEU AUSÊNCIA DE INDÍCIOS SUFICIENTES DE AUTORIA. FUNDAMENTAÇÃO EXCLUSIVA EM ELEMENTOS INQUISITORIAIS E TESTEMUNHOS INDIRETOS. ART. 155 DO CPP. ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO À SOBERANIA DOS VEREDICTOS. NÃO OCORRÊNCIA. CONTROLE DE LEGALIDADE DA BASE PROBATÓRIA. INEXISTÊNCIA DE REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO. SÚMULA 7/STJ INAPLICÁVEL. AGRAVO DESPR…

Acórdão

j. 02/06/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CRIME DOLOSO CONTRA A VIDA. PRONÚNCIA. TESTEMUNHO DE OUVIR DIZER. ELEMENTOS DO INQUÉRITO. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS DE AUTORIA PRODUZIDOS EM JUÍZO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.I. CASO EM EXAME1. Agravo regimental interposto pelo órgão acusador estadual contra decisão monocrática que conheceu do agravo para não conhecer do recurso especial, em ação penal por homicídio qualificado, na qual o Tribunal de orig…

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j. 12/05/2026

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. HOMICÍDIO QUALIFICADO. PRONÚNCIA. INDÍCIOS DE AUTORIA. TESTEMUNHO NÃO CARACTERIZADO COMO "OUVIR DIZER". PRINCÍPIO DO IN DUBIO PRO SOCIETATE. REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.I. CASO EM EXAME1. Agravo regimental interposto pela defesa contra decisão monocrática que, com fundamento na Súmula n. 568 do STJ, conheceu do agravo para conhecer do recurso especial e negou-lhe provim…

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