JurisprudênciaIA

Cessão fiduciária de título de crédito sem registro em cartório entra na recuperação judicial?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Não. Segundo informativo do STJ, a cessão fiduciária de título de crédito não se submete à recuperação judicial, independentemente de registro em cartório de títulos e documentos. O registro serve apenas para resguardar terceiros e não é requisito de constituição da garantia, que permanece extraconcursal.

Garantia fiduciária é extraconcursal e o registro é facultativo

A jurisprudência do STJ é pacífica no sentido de que contratos com garantia fiduciária ficam fora do regime da recuperação judicial, por força do art. 49, § 3º, da Lei 11.101/2005. Os direitos cedidos fiduciariamente integram o patrimônio do credor fiduciário, não o da empresa em recuperação.

Quanto ao registro, a formalidade não está prevista no art. 66-B da Lei 4.728/1995 como requisito de constituição da garantia, e o STF já reconheceu seu caráter facultativo. O registro se destina a proteger eventuais direitos de terceiros (no caso de recebíveis, os devedores da empresa), e não os credores concursais, aos quais é indiferente o destino de bem que não integra o patrimônio sujeito à recuperação.

Recebíveis não são bens de capital essenciais

A recuperanda também não pode invocar a regra que impede a retirada de bens de capital essenciais durante o stay period. Para o STJ, essa ressalva exige bem corpóreo, na posse direta do devedor, não perecível nem consumível, características que não alcançam títulos de crédito cedidos fiduciariamente, que sequer estão na posse direta da empresa e não são insumo de produção.

Na prática, o credor titular de cessão fiduciária de recebíveis pode buscar a satisfação do crédito fora da recuperação judicial, mesmo sem registro em cartório. A aplicação do entendimento a cada contrato, porém, depende do exame das cláusulas e da natureza da garantia no caso concreto.

O que dizem os tribunais

Informativo 721 do STJ · RE 611.639

Cessão fiduciária de direito de crédito. Recuperação judicial. Não submissão. Cartório de títulos e documentos. Registro para constituição da garantia. Desnecessidade. A cessão fiduciária de título de crédito não se submete à recuperação judicial, independentemente de registro em cartório. É pacífico na jurisprudência do STJ que os contratos gravados com garantia fiduciária não se submetem ao regime da recuperação judicial, cuidando-se de bens ou valores extraconcursais, conforme previsto no art. 49, § 3º, da Lei n. 11.101/2005. Ademais, a ausência de registro, que é requisito apenas para a preservação de direito de terceiros, não constitui requisito para perfectibilizar a garantia. Tal form…”Ler na íntegra

Cessão fiduciária de direito de crédito. Recuperação judicial. Não submissão. Cartório de títulos e documentos. Registro para constituição da garantia. Desnecessidade. A cessão fiduciária de título de crédito não se submete à recuperação judicial, independentemente de registro em cartório. É pacífico na jurisprudência do STJ que os contratos gravados com garantia fiduciária não se submetem ao regime da recuperação judicial, cuidando-se de bens ou valores extraconcursais, conforme previsto no art. 49, § 3º, da Lei n. 11.101/2005. Ademais, a ausência de registro, que é requisito apenas para a preservação de direito de terceiros, não constitui requisito para perfectibilizar a garantia. Tal formalidade não está prevista no art. 66-B da Lei n. 4.728/1995, na redação introduzida pela Lei n. 10.931/2004, nem possui respaldo na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu o caráter de facultatividade do registro (Pleno, RE 611.639/RJ, Rel. Ministro Marco Aurélio, unânime, DJe de 15/4/2016). Tal convicção decorre de que o Código Civil, art. 1.361, § 1º, e seguintes, cuida exclusivamente de bens infungíveis, qualidade que não alcança os recebíveis e os direitos de crédito em geral. Os direitos cedidos fiduciariamente integram o patrimônio do credor fiduciário e não da empresa em recuperação. No caso de cessão fiduciária de recebíveis, dada a especificidade da legislação de regência, até mesmo a posse direta do bem dado em garantia, bem como todos os direitos e ações a ele concernentes, são transferidos ao credor fiduciário tão logo contratada a garantia. A necessidade de registro se destina a salvaguardar eventuais direitos de terceiros, vale dizer, no caso de recebíveis, direitos que possam ser alegados pelos devedores da empresa em soerguimento, e não pelos seus credores, aos quais é indiferente o destino de bem que não integra o patrimônio sujeito à recuperação. Do mesmo modo, não cabe a invocação do princípio da preservação da empresa, com apoio na parte final do § 3º do art. 49 da LRF, segundo o qual durante o stay period não podem ser retirados do estabelecimento do devedor "os bens de capital essenciais a sua atividade empresarial". Direitos de crédito cedidos fiduciariamente não se encontram sob o abrigo de tal regra, seja por não estarem no estabelecimento empresarial sob a posse direta da empresa em recuperação, por força de sua disciplina legal específica, seja por não se constituírem "bem de capital". Para que o bem se compreenda na ressalva contida no § 3º do art. 49, é imprescindível que se trate de bem corpóreo, na posse direta do devedor, e, sobretudo, que não seja perecível e nem consumível, de modo que possa ser entregue ao titular da propriedade fiduciária, caso persista a inadimplência, ao final do stay period. Com maior razão ainda não podem ser considerados bens de capital os títulos de crédito dados em alienação fiduciária. Estes, ao contrário do estoque, sequer estão na posse direta do devedor e, muito menos, são bens utilizados como insumo de produção. Trata-se patrimônio alienado pelo devedor, em caráter resolúvel, é certo, para garantia de obrigações por ele assumidas. O credor que financia a atividade produtiva, mediante a alienação fiduciária de recebíveis dados em garantia de CPRs, certamente o faz contando com a segurança da garantia segundo sua disciplina legal, garantia essa que saberia débil, caso recaísse sobre bens de capital utilizados na produção, fossem eles móveis ou imóveis. Considerar que a mera intenção de fazer caixa, mediante a apropriação de recebíveis (de propriedade resolúvel do credor fiduciário), possa justificar exceção à regra do art. 49, § 3º, da Lei n. 11.101/2005, implicaria tornar sem substância o regime legal da propriedade fiduciária, uma vez que recursos financeiros sempre serão essenciais à recuperação de qualquer empreendimento. Informativo de Jurisprudência n. 578 Informativo de Jurisprudência n. 518

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