JurisprudênciaIA

Filmar clandestinamente pornografia infantil em casa, abusando da confiança, justifica pena-base maior?

Atualizado em 07/07/2026 · Fundamentado em jurisprudência de STJ

Resposta rápida

Sim. Segundo o STJ, a produção clandestina de pornografia infantil no ambiente doméstico, com violação da intimidade da vítima por quem se aproveitou da relação de confiança e coabitação, justifica a valoração negativa da culpabilidade e o aumento da pena-base nos crimes dos arts. 240 e 241-A do ECA, sem configurar bis in idem.

Culpabilidade acentuada não se confunde com o tipo penal

A culpabilidade do art. 59 do Código Penal mede o grau de reprovabilidade da conduta diante das circunstâncias concretas, e não repete os elementos do tipo. Embora toda pornografia infantil seja reprovável, a intensidade dessa reprovação varia conforme a idade das vítimas, a natureza dos atos retratados e as circunstâncias de produção ou difusão do material.

No crime do art. 240 do ECA, o STJ considerou legítimo valorar negativamente o contexto global: filmagens clandestinas em casa, durante ato fisiológico da vítima, feitas por pessoa que deveria protegê-la e que se aproveitou da confiança e da coabitação. Esse conjunto extrapola a tipicidade ordinária e autoriza pena-base acima do mínimo.

O conteúdo do material também pode agravar a pena

No crime do art. 241-A do ECA, a amplitude do tipo (que fala genericamente em criança ou adolescente) não impede que o juiz considere a gravidade concreta do material compartilhado. Quando a perícia identifica sexo explícito envolvendo crianças de idade bastante reduzida, isso não é mera repetição da elementar, mas circunstância que revela maior desvalor da conduta.

Para o STJ, reconhecer essa gradação não significa punir duas vezes pelo mesmo fato, e sim adequar a resposta penal à gravidade específica revelada pela prova. A fundamentação, porém, precisa apontar circunstâncias concretas, e os tribunais examinam a idoneidade dessa motivação caso a caso.

O que dizem os tribunais

Informativo 876 do STJ

1 - No crime do art. 240 do ECA, a produção clandestina de pornografia infantil no ambiente doméstico, com violação da intimidade da vítima por pessoa que se aproveitou da relação de confiança e coabitação, justifica a culpabilidade acentuada, independentemente da análise isolada da idade ou da quantidade de registros. 2 - No crime do art. 241-A do ECA, a amplitude do tipo penal não impede que o julgador, ao analisar a culpabilidade, considere a gravidade concreta revelada pelo conteúdo específico do material compartilhado, notadamente quando a perícia identifica o envolvimento de crianças de idade bastante reduzida.

Decisões recentes sobre o tema

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Acórdão

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